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Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinquenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinquenta anos, mas tudo bem).

Galera proletariada dos bares ruins

Garçom num boteco de BH

Mais uma ae meu nobre

Créditos: Amanda Almeida

No bar ruim que ando frequentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

  • – Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

Porção de Frango à passarinho

Isso é Brasil, porra!

Créditos: Tobias Ragonesi

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha.

Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Brasil bom é um Brasil bem diagramado

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de frango à passarinho, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida.

Boteco dem Santa Teresa

Créditos: roney

Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida.

Bares ruins também ficam “cults”

Velho sentado e chateado

Bar cult é meu saco, cadê pé sujo?

Créditos: Linda Wisdom

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo frequentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto frequentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas.

Antes era melhor hein…

Boteco pé sujo

Bem melhor juntar a galera no boteco

Créditos: Leonardo Cruz

Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV.

Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Como são os donos dos bares ruins?

Cachorro deitado no colo de um velho sentado num boteco

Eu entendo meus clientes e trago meu cachorro

Créditos: Steve Collins

Os donos dos bares ruins que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem.

Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinquenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato).

Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Finalizando meio intelectualmente

Garçom num boteco

Essa vida meio intelectual não é fácil viu...

Créditos: Bruno Surian

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo.

Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Por Antônio Prata*

*Antonio Prata nasceu em São Paulo em 1977. Estudou filosofia na USP, cinema na FAAP e ciências sociais na PUC-SP. Tem nove livros publicados, entre eles As pernas da tia Corália (Objetiva, 2002), O inferno atrás da pia (Objetiva, 2004), Adulterado (Moderna, 2009) e Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010), agraciado com o Prêmio Jabuti na categoria contos e crônicas.

Entre 2003 e 2010, escreveu regularmente para o jornal O Estado de S. Paulo; desde então, passou a publicar suas crônicas na Folha de S. Paulo, sempre às quartas-feiras. Trabalha também como roteirista de cinema e TV, colaborando atualmente na novela Avenida Brasil, da Rede Globo.

Sobre o Autor

Eu sou um mero visitante falando um monte de baboseiras enquanto bebo fora do PdB. Portanto, não me xingue caso fale alguma besteira.

  • Godoy

    Entendi. Tipo, hipster. Mas meio intelectual, meio de esquerda, não chama de hipster, porque o termo agora é muito mainstream.

    • http://www.papodebar.com/ Dono do Bar

      Exato… Ou meio exato… Sei lá :)

  • Rafael Carvalho

    Post épico! Me lembrou que preciso voltar ao Bar do Maria Loura(sim, o Maria Loura, vulgo Jão), com sua caranha frita, bolinho de peixe, pinga com coquinho, banheiro tacanho e freezer do lado de fora do balcão onde você mesmo se serve se cerveja.

    • http://www.papodebar.com/ Dono do Bar

      Opa João, onde fica o Maria Loura? Fiquei interessado nele…

  • http://porraman.com Marcio Melo (@marciosmelo)

    “…um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida.”

    Perfeito meu caro, tenho o mesmo sentimento. Até hoje brigo com meus colegas para irmos em um bar assim. Aqui em Salvador a moda é bar chique, caro e “sem alma” fantasiado de “boteco”, tanto no nome, quanto nos ladrilhos das paredes. Triste.

    • http://www.papodebar.com/ Dono do Bar

      Sim Marcio, está na moda essa “onda” meio playboy, meio bem sucedido… Estão estragando os botecos clássicos…

      E aqui no Rio estão meio que distorcendo essa porra, lançando bares “como eram antigamente”. Porra, existe muito boteco sujo, meio intelectual e toda essa baboseira, é só seguir a lógica…

      E viva o boteco, viva a Lapa, principalmente :D

  • Marcelio

    Otimo Texto!
    O mais engraçado são os meio intelectuais, meio de esquerda, deixando seus comentários… Não entendendo a ironia do texto.

  • Raul Souza Silva

    Em frente a minha universidade tem o bar do rafa, pouca gente vai la por ser “feio”. Pow, de sexta o pessoal leva churrasqueira, o croissant de la é o melhor q já comigo, aquele pão de batata com frango, minha nossa, sem contar com as porções de calabresa. Sempre tem alguma cerveja em promoção. Sempre quando quero alguma garrafa de vodka ou whisky peço pra ele trazer pra mim mais barato =)

    Eu gosto de variar, gosto tanto de botecos tanto quanto pubs (um pub que eu gosto de ir é o O’Malley’s, na consolação, tem de tudo lá em um preço totalmente acessível).

    E realmente, quando o publico começa a aumentar, começa a estragar o bar, tinha um bar q eu ia sempre com os amigos da faculdade, tomavamos pelo menos umas 10 garrafas de cerveja no intervalo da faculdade as vezes, e sempre rolava a saidera de graça. Hoje se eu for la vai ter garçons de uniforme, mesa sempre limpa, sem nenhuma marca de copo molhado…

  • Victor

    Parabens Antonio Prata por escrever tão bem, conheci essa cronica no livro As 100 melhores cronicas brasileiras, uma seleção feita por Joaquim Ferreira dos Santos, da editora Objetiva, publicado em 2007, e sempre achei ela uma das melhores de todo o livro.
    Tudo de bom e muito sucesso.

  • Priscilla

    Melhor ainda é bar alternativo ruim, tipo o Heavy Duty, no Rio de Janeiro.
    Você pede uma porção de batata frita e quando tá pronto, socam o balcão e gritam “Batata frita, porra!!!”

  • Denner Lima

    Texto extremamente FODÁSTICO, do tipo que agente lê para os filhos, mas como eu não tenho filhos, dissemino para os meus mais próximos daqui mesmo, inclusive os parceiros de Bar!

    Frequentava um “SR” Bar de um amigo (Oliveira), bem a este estilo do texto, com todas as porções dos deuses (do agreste e tals), com aquela bela Serra Malte e ouvindo um bom samba… E quando chegava no refrão, agente mandava todos juntos:

    “Oliveeeiraaaaaa laaaaalaiáááá, é o Oliveeeiraaaaaa laaaaalaiáááá!!”

    Fazendo uma versão para a bela música do Arlindo Cruz, “Madureira”… Tá certo que ela foi estragada na novela Avenida Brasil com o “É o Divino”, mas fazer o quê?!