A história e origem da cerveja

“Veja a história e origem completa da cerveja. Quando e como surgiu a primeira cerveja, como era feito e quais ingredientes eram adicionados na preparação das primeiras cervejas? Conheça a deusa Ninkasi e seu Hino, confira!”

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Desde quando as pessoas bebem cerveja? Cientistas e estudiosos da cerveja têm salientado que o início do desenvolvimento da civilização humana está intimamente relacionado com a arte da fabricação de cerveja.

Mas a pergunta acima, apesar de muito interessante e pertinente, ainda permanece sem resposta.

A cerveja nos primórdios

Barra suméria com história da cerveja

Créditos: Steve Harris

Se voltarmos aos primórdios da civilização humana, podemos ter uma ideia de como a cerveja pode ter sido descoberta e mais importante, como ela pode ter ajudado o homem a se civilizar.

Há cerca de 10.000 anos atrás os homens ainda eram nômades, e tinham de caçar e coletar seu próprio alimento. A dieta naquela época era composta por animais que os homens conseguiam caçar e tudo aquilo que eles pudessem coletar, desde frutas, verduras e legumes, a tubérculos, sementes e cereais.

Cereal, O cara

Plantação de trigo

Créditos: Alberto Santucci

Um alimento encontrado normalmente em maior abundancia, eram os cereais. Estes espalhados por campos onde os homens os podiam colher. Aquele cereal colhido era então uma fonte vital de alimento, porem um alimento extremamente difícil de consumir. Pois o grão, depois de colhido é duro como pedra, o que dificultava sua ingestão e provavelmente quebrava muitos dentes.

Para facilitar o consumo desses cereais, moeu-se o cereal duro para transforma-lo em farinha. E a esta farinha misturou-se água e fez-se uma espécie de mingau ou massa, que ia ao fogo para virar “pão” e era então consumido. Este foi provavelmente o primeiro pão feito pelo homem.

Cereal + Água = Cereal mais macio

Pingo d'água

Créditos: CHARLES MOSIER

Como aquele cereal duro era muito difícil de moer, o homem descobriu que se deixasse o cereal de molho por um tempo, ele absorveria água, assim amolecendo e tornando mais fácil a sua moagem.

Constatou-se que aquele grão, embebido em água, alem de mais fácil de moer, quando não moído, após alguns dias começava a germinar e gerava uma nova planta. O que pode ter sido o inicio do assentamento humano, com o advento da agricultura, que levou a formação de vilas agrícolas e a transição de homens nômades para sedentários. Isso ocorreu por volta de 7.000 a.C. na Mesopotâmia.

O nascimento do primeiro Malte

Percebeu-se também, que aquele grão, após o começo da germinação, se fosse seco, antes da germinação se fazer completa, seria mais fácil de moer do que o grão que não foi germinado. E desse cereal germinado e seco, se faria um pão mais doce que o do cereal que não passou pelo mesmo processo. Assim nasceu o primeiro malte.

Como naquela época desperdício não era uma coisa muito comum, devido à dificuldade de se encontrar alimento, nada era jogado fora. Então um pouco de massa de pão, que não fosse ao “forno”, não seria nunca jogada fora.

Mosto, a “sopa” cervejeira

Mosto cervejeiro

Créditos: Brew Day MEH

Esta massa que sobrasse, seria jogada em uma jarra com água e outros ingredientes localmente disponíveis, para não haver desperdício. Seria então feito uma “sopa” com esse resto de massa e os outros ingredientes, levando a mistura ao fogo.

Esta “sopa” seria o ancestral do nosso mosto cervejeiro, pois devido ao fogo precário (daqueles tempos sem fogão), essa “sopa” passava por um processo arcaico de mostura, o que converteria parte do amido dos cereais em açúcares em um processo enzimático, deixando assim o líquido doce.

Parte dessa “sopa” seria consumida imediatamente, e provavelmente era algo que os homens daquela época gostavam bastante, pois o sabor docinho da “sopa” era muito agradável.

As receitas e ingredientes dessa “sopa” variavam de acordo com local, época do ano e clima onde era produzida. Podia conter alem de cereais em sua formulação, frutas, mel, especiarias e qualquer outro ingrediente disponível no local.

A fermentação da “sopa”

Como sabemos, naquela época, nada era desperdiçando e com a “sopa” não seria diferente. Então a “sopa” que sobrava era guardada para consumo póstumo. O que os nossos ancestrais não sabiam, é que ao guardar essa “sopa”, eles acidentalmente permitiram que ela fermentasse.

Surgimento dos primeiros bêbados

Gato bêbado com cigarro na mão

Créditos: Fernando Caras

Após algum tempo guardada, a “sopa” seria então novamente consumida. Ao tomar aquela “sopa”, que havia sido guardada por alguns dias, os homens perceberam que o sabor havia mudado. Não tinha mais aquele sabor docinho da “sopa” fresca e após algumas doses, os homens começaram a se sentir diferentes, tontos, alegres… E assim surgiram os primeiros bêbados!

O que não se sabe é onde ou quando isso ocorreu exatamente. Existem vestígios de produção de cerveja datados de algo em torno de 9.000 a.C. Foram encontrados resíduos de cerveja conservados em potes de cerâmica na aldeia Neolítica de Jiahu, na província de Henan na atual China.
Esta cerveja teria sido feita a partir de arroz, frutas, mel e especiarias.

Hino a Ninkasi

O primeiro documento escrito relatando o processo de produção de cerveja é uma placa de barro com inscrições cuneiformes, chamado de Hino à Ninkasi, escrito por um poeta Sumério, datado de 1800 a.C. Porém o Hino em si prova-se muito mais antigo que a escritura encontrada.

Tela com a deusa Ninkasi

Os Sumérios foram o povo que habitou a região da Mesopotâmia, atual Iraque, entre o 6° e o 2° milênio antes de cristo, antes do surgimento dos Babilônios no 2° milênio. São conhecidos como a primeira grande civilização ocidental humana, responsáveis pelo advento da escrita, economia, agricultura, o primeiro registro de religião e é claro os primeiros grandes produtores e consumidores de cerveja da historia.

Um poema cervejeiro

O Hino à Ninkasi é um poema devotado à Deusa suméria da cerveja e Mestre Cervejeira entre os Deuses, Ninkasi. Nascida das bolhas de uma fonte de água fresca, seu nome significa “senhora que enche a boca”.

O Hino Ninkasi foi traduzido por Miguel Civil, em meados do século XIX e diz:

Nascida de água corrente,
Ternamente cuidada pela Ninhursag,
Nascida de água corrente,
Ternamente cuidada pela Ninhursag,

Tendo fundado sua cidade pelo lago sagrado,
Ela terminou suas grandes paredes para você,
Ninkasi, fundando sua cidade pelo lago sagrado,
Ela terminou de suas paredes para você,

Seu pai é Enki, Senhor Nidimmud,
Sua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado.
Ninkasi, seu pai é Enki, Senhor Nidimmud,
Sua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado.

Você é a única que lida com a massa [e] com uma pá grande,
Misturando em uma caldeira, o bappir (pão sumério) com aromas doces,
Ninkasi, você é a única que lida com a massa [e] com uma pá grande,
Misturando em uma caldeira, o bappir com mel,

Você é a única que assa o bappir no forno grande,
Coloca em ordem as pilhas de grãos descascados,
Ninkasi, você é a única que assa o bappir no forno grande,
Coloca em ordem as pilhas de grãos descascados,

Você é a única que rega o conjunto de malte no chão,
Os cães nobres manteem-se longe até mesmo os potentados,
Ninkasi, você é a única que rega o conjunto de malte no chão,
Os cães nobres manteem-se longe até mesmo os potentados,

Você é a único que embebe o malte em um frasco,
As ondas sobem, as ondas de caem.
Ninkasi, você é a única que embebe o malte em um frasco,
As ondas sobem, as ondas de caem.·.

Você é a única que se espalha no mosto cozido em esteiras de junco grandes,
Frieza supera,
Ninkasi, você é a pessoa que espalha o mosto cozido em esteiras de junco grandes,
Frieza supera,

Você é a única que mantém com as duas mãos o mosto grande doce,
Brassando [ele] com mel [e] vinho
(Você, o doce mosto da caldeira)
Ninkasi, (…) (Você, o doce mosto da caldeira)

A cuba de filtragem, que faz um som agradável,
Você coloca adequadamente em uma cuba coletora grande.
Ninkasi, a cuba de filtragem, que faz um som agradável,
Você coloca adequadamente em uma cuba coletora grande.

Quando você despeja a cerveja filtrada do barril coletor,
É [como] o encontro do Tigre e Eufrates.
Ninkasi, você é o único que derrama a cerveja filtrada do barril coletor,
É [como] o encontro do Tigre e Eufrates.

Cerveja, uma alimentação diária

Copo de cerveja e pão

Créditos: Sabino Parente

A cerveja era parte muito importante da cultura suméria, pois fazia parte da alimentação diária da população e deveria então ser produzida diariamente. Devido ao fato de ser feita a partir de água fresca e precisar ser fervida no processo de produção, a cerveja era uma bebida mais segura de se beber do que a própria água, que podia estar contaminada e não era fervida.

Cerveja, uma bebida de ricos, pobres e… Deuses

Documentos provam que a cerveja era consumida por todas as castas e níveis da população, desde os mais pobres aos mais ricos e nobres. Acreditava-se na época, que até mesmo os Deuses bebiam cerveja e dela se embebedavam.

Deusa da cerveja: Ninkasi. Cerveja é coisa de mulher.

Diferentemente do que vemos hoje, os responsáveis pela produção da cerveja não eram os homens, pois eles naqueles tempos não tinham tempo para ficar em casa cozinhando, cuidando da prole ou fazendo cerveja… Haviam guerras a serem lutadas, animais a serem caçados e tarefas a serem cumpridas. O que deixava a cargo das mulheres fazer o pão assim como a cerveja. Por isso, a Deusa da cerveja, Ninkasi, é uma figura feminina.

Deusa Ninkasi

Existiam diversos tipos de cervejas disponíveis na Suméria, feitas com diferentes receitas e ingredientes. Haviam cervejas tidas como claras leves e fortes, vermelhas, escuras-doces, escuras-fortes e muitas outras. E para cada uma delas, existia um símbolo especifico no alfabeto sumério para retratá-la e identifica-la. O que demonstrava uma cultura desenvolvida de produção cervejeira.

Esta cultura cervejeira não se perdeu com a decaída do império Sumério no 2° milênio a.C., foi absorvida e aperfeiçoada pelos impérios e civilizações que após os Sumérios prosperaram, como os Babilônios e Egípcios e por fim os Romanos, que difundiram a cerveja pelo continente europeu, onde a cerveja se tornou mais parecida com a bebida que conhecemos e bebemos hoje.

Um brinde à Ninkasi, deusa da cerveja e da nossa felicidade!

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