Em defesa dos Botecos!

“Vamos falar dos botecos, os famosos pé-sujos, aqueles bares pequenos, com muitos bêbados, com pessoas estranhas, felizes ou não. Nos botecos que aprendemos a viver e a beber.”

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Há poucas coisas mais brasileiras do que os botequins, ou como são mais comumente conhecidos, os botecos. Os ingleses têm seus pubs duvidosos, os franceses seus cafés imundos e os americanos os seus dives. Mas nenhum deles se equivale aos nossos bons e velhos botecos. Estou falando de botecos mesmo, daqueles bem obscuros, escondidos, que ficam abertos 24 horas por dia e em localizações incomuns.

“Havia menos dentes na boca do atendente do que garrafas atrás do bar. As paredes tinham um tom amarelado por de anos fumaça dos cigarros que ali eram fumados. O banheiro era nada mais do que um balde com um dreno, e os clientes pareciam tão dispostos a puxar uma faca quanto de iniciar uma conversa. Se o diabo entrou pela porta, se sentiu em casa. E eu também”

Trecho de The Dead Dame, Mack Ralston, 1944.

Os botecos não são para todos

No vasto gênero de bares, pubs, tabernas e casas noturnas, os “pé sujos” são excentricidades, adequados para um seleto grupo de pessoas. Se você acha que é uma delas, entre.

Como ter certeza que você está em um boteco? Só porque o barman não usa uma gravata borboleta não significa que você está de bebedeira com o Charles Bukowski. Então o que separa um verdadeiro boteco das falsificações? Ainda bem que você perguntou.

Os sete elementos essenciais dos botecos…

História dos botecos

Dono de um boteco

Não mesmo!

Créditos: Tay

Não é possível conceber um boteco da noite para o dia. E acredite, existe uma infinidade de profissionais que tentarão levar você ao erro: empresários, arquitetos e desenhistas de interiores gastarão muito dinheiro para tentar fazer com que você se sinta em um boteco, quando na verdade você está sentado em um simples bar.

Por outro lado, alguns proprietários de botecos vão se aborrecer se você chamar seu bar de boteco, da mesma forma que uma balzaquiana, daquelas bem atraentes, vai rosnar para você se for chamada de senhora. O que é bom . Os donos de botecos não precisam saber que possuem um.

Para um bar se tornar um boteco de respeito, são anos e anos de resistência, dedicação e preguiça. Você vai encontrar aqueles letreiros luminosos com saudações de datas comemorativas que eram vendidos nos anos 50 e olhe lá! E porque esses verdadeiros museus ainda estão na parede? Simples: o dono do boteco teve preguiça de tirar. Uma reputação de boteco não pode ser comprada, deve ser conquistada e impregnada na própria estrutura por décadas de negligência.

O nome do boteco também ajuda a compor sua reputação, e deve refletir esse sentimento histórico. O nome deve soar datado, geralmente fazendo referência ao sobrenome do primeiro dono.

Ambiente Escuro

Um boteco não é mal iluminado puramente por causa da atmosfera. É escuro porque o proprietário está tentando esconder as manchas de vômito no tapete, o trabalho de pintura mal feita e desgastada e os estofados com marcas de cigarro. A luz natural é ruim. As janelas devem ser fortemente coloridas ou completamente bloqueadas. Luz do sol faz com que as coisas cresçam, e como disse Bukowski, crescer é para as plantas.

Decoração Eclética

Parede dos botecos

Créditos: Leo

A decoração do lugar não foi feita por um desenhista de interiores, mas deve parecer que foi. Foram décadas até que a decoração ganhasse aquele aspecto, uma mistura de ícones pops de várias décadas com móveis rústicos e mais antigos que o próprio estabelecimento. As paredes do banheiro devem estar rabiscadas, e alguns destes rabiscos devem ter sido produzidos décadas atrás. Nas paredes, quadros de cervejas e destilados que não são vendidos há muito tempo.

Alguns botecos não terão móveis tão rústicos ou antigos. Espere por mesas e cadeiras de plástico, na melhor das hipóteses ferro, e algumas toalhas que parecerão mais sujas do que o pior pano de chão da sua casa.

Você encontrará bares que tentam imitar este ambiente, mas não se engane, são falsificações. Procure pelos autênticos!

Atendimento ruim

Não espere para ser atendido. Garçons que optaram por trabalhar em um boteco operam de um jeito muito simples: dê uma boa gorjeta e eles não lhe derramarão bebida. Não espere saudações, grandes sorrisos falsos e olhos ilumidados quando você sacar seu cartão Platinu. Eles podem nem aceitar cartões de crédito. Repeite-os e será tratado com respeito. E só!

Bebida boa e barata

Ah sim! Qualquer um consegue beber em um boteco de verdade. Seus donos não estão interessados em ganhar muito dinheiro. Não é sua prioridade. Se fosse eles reformariam a casa e iriam atender um público mais endinheirado. Em um boteco de verdade você beberá cerveja barata em copo americano e tomará destilados que nunca ouviu o nome. Irá beber como nunca e no final a conta fará você quase cair para trás e continuar bebendo. Botecos são para os fortes!

Velhinhos sentados no bar

Todo boteco tem pelo menos um. O barman os conhece pelo nome e hábito. Não se preocupe, eles não irão incomodá-lo. Mas se quiser trocar uma boa conversa com alguém experiente com boas histórias para contar, além de boas dicas sobre o boteco e a região, vá fundo.

Banheiro apertado

Nos botecos os banheiros servem apenas para você urinar. Não espere sabonetes líquidos, papéis toalha e espelhos para você dar uma arrumada do cabelo antes de voltar para mesa. Aqui o banheiro é extremamente funcional.

Prós e Contras dos botecos

Bêbado sentado no boteco

BURP! Ih carai…

Créditos: Julia Tarraf

Se você conhece um bar que atende esses critérios, vá aproveitá-lo! Claro, há desvantagens: banheiro ruim, ambiente não muito agradável, pessoas bebendo até cair e um ar geral de depressão. Mas há benefícios. Em botecos você pode realmente beber até cair, e pagando pouco. Você pode ir desde a bebida mais barata até a mais cara e ninguém irá julgá-lo. Aqui não há motivos para se envergonhar. Se você quer tomar aquele porre mas não quer ter que “esbarrar” com amigos ou conhecidos, procure um desses botecos. Se bater a fome, coma um torresmo ou um ovo colorido. Acredite, não será problema algum.

É por estas razões que os botecos ainda atraem tanta gente. Olhe ao redor! São viúvas que ficaram sem um tostão, rostos marcados de uma vida dura, pessoas fugindo de seus problemas e quase se tornando alcoólatras. E sim, pessoas como você, com seus dentes cerrados depois de um dia duro de trabalho procurando um meio de relaxar sem que essa saída se torne um evento.

Nesses estabelecimentos também existem os frequentadores regulares, mas não espere que eles irão se misturar com você. Se acham excêntricos demais para isso. Eles irão te olhar de longe e evitarão contato visual.

Porém, fique atento, de ouvidos abertos, e tente escutar como soam as conversas em um boteco. Em um bar normal você deverá ouvir coisas como:

  • “Viu o jogo ontem? “
  • “Cara, não dá mais para ir trabalhar de carro. O trânsito tá horrível. “
  • “Olha que gostosa!”
  • “Amiga, a minha bolsa nova é mara!”

E assim por diante . Compare essas bobagens com as conversas que você ouvirá no boteco:

  • “Cara, to numa ressaca fodida. Paga uma dose pra mim? Preciso melhorar.”
  • ” Cara, já te disse, to fora desse bagulho ae.”
  • ” Você lembra um cafetão que eu conheci uma vez. Muita marra e nenhum dinheiro.”
  • “Então, eu sou um cafetão agora? Posso te chamar de minha puta?”

Sim, isso é diversão. Em uma noite você pode tomar os mais variados shots, de bebidas realmente exóticas, tomar aquelas cervejas mais baratas e viajar por universos jamais explorados.

É em um boteco que você irá encontrar aquelas estórias que só são contadas em filmes. Em um boteco não há drama, não há perigo, e tudo pode acontecer. Esqueça engravatados comemorando suas promoções ou patricinhas com taças de prosecco comentando como foi o último capítulo da novela. Nos botecos as pessoas vão para lamberem suas feridas. É lá que elas encontram refúgio para tomar decisões desesperadas. O boteco é um excelente lugar para você se reagrupar emocionalmente, sem julgamentos. Só você, meia dúzia de estranhos e algumas bebidas baratas.

Boteco, lugar de lavar a alma

Garrafas dos botecos

Créditos: Edson Soares

Acabou de terminar com a namorada e ainda não entendeu o por quê? Vai fazer o quê? Ir para uma boate bacana e dançar a noite toda com um drink com guarda-chuva na mão? Não. Você vai procurar um lugar escuro para pensar sobre o que deu errado. Você vai se debruçar sobre o balcão, com um copo de whisky barato em uma das mãos, resmungando para si mesmo: “Ela vacilou naquele dia, não consigo perdoá-la. Vaca!”. Esqueça paqueras e piscadinhas de olhos. O boteco é um dos poucos lugares que você pode beber sozinho e não ser incomodado por alguns playboyzinhos e patricinhas. Ninguém vai andar até você e dizer:

  • “Por que essa cara?”
  • Ou “Por que você está sentado sozinho?”
  • Ou o pior de tudo “Vamos lá , sorria! Você vai se sentir muito melhor , eu prometo!”

Em um boteco todo mundo assume que você tem motivos para estar sentado sozinho, e a sua escolha é respeitada. Pessoas com problemas pessoais odeiam multidões. Quando há muitos rostos para prestar atenção, você desvia o foco de si mesmo.

Até o final da noite, o seu tempo de silêncio lhe dará a chance de entender o que deu errado. Se não, pelo menos você estará bêbado o bastante para nem ligar para os seus problemas. Foda-se!

Em algum momento, em umas de suas visitas a um boteco, você irá se deparar com um ambiente cheio de pessoas que não estão ali pelo mesmo motivo que você. São “invasores”. Mas você irá reconhecê-los facilmente. Eles estarão reclamando do banheiro ou ficarão apontando para o senhor sentado no canto do bar. Farão piadas sobre os frequentadores e reclamarão que só tem bebida barata. Eles irão chamar o proprietário e vão sugerir que ali seja instalado um karaoke ou algo que o valha. Se o dono do boteco não tiver personalidade e achar que atender a sua “nova clientela rica” é uma boa, esqueça esse boteco. É a ausência de pessoas e aquele ar meio escuro e solitário que tornam os botecos interessantes. Não são lugares para uma noite de diversão em grupo. São lugares para você refletir.

Etiqueta no boteco

Não fique na porta. Entre e escolha um lugar. Botecos não são lugares para aparecer. Você deve passar tão despercebido quanto um item da decoração. Deixe seu maldito telefone celular em casa. Um boteco é um lugar para se esconder e não para ser encontrado.

Deixe os frequentadores em paz. Botecos são lugares onde você pode ficar realmente bêbado. Se você não incomodar ninguém, nenhum segurança irá expulsá-lo.

Não vá em grandes grupos a um boteco. Três pessoas é o número máximo. Mas lembre-se: em um boteco você está tentando suplantar o seu ego. É melhor ir sozinho. Você pode até aprender a gostar de si mesmo.

Pé sujo de família

Meu saudoso avô materno era proprietário de um desses botecos. Quando eu tinha aproximadamente 12 anos (não me lembro ao certo), trabalhei alguns meses ajudando-o. Saía da escola e ficava por lá das 14:00h até as 17:00h. Meu avô tinha uma ferida na perna que custava a melhoras, e era nessas três horas por dia que ele podia ficar sentado. Eu ficava servindo a clientela e recebendo as bebidas.

Casal se olhando no boteco

Créditos: Edson Soares

Lembro-me bem de um senhor que anotava o jogo do bicho e se sentava na última mesa do bar. De vez em quando ele pedia uma dose de cachaça. Também me lembro de outro senhor que chegava no boteco e sequer cumprimentava o meu avô. Ele se sentava no balcão e o meu avô me mandava lhe servir uma dose de Ypioca. De tempos em tempos ele fazia um sinal e o meu avô me mandava servir mais uma dose. Depois de algumas horas ele se levantava, bêbado, obviamente, sacava uma nota do bolso e entregava ao meu avô. Entrava mudo e saía calado. E assim eram tantos outros.

Certo dia uma pessoa bem vestida, provavelmente funcionário de um supermercado que funcionava próximo ao estabelecimento de meu avô, entrou no bar. Chamou minha atenção. Como eu ainda era um pré-adolescente, me assustava facilmente com algumas coisas. Lembro-me deste homem sentar no balcão e começar a pedir bebidas: cachaça, conhaque, rum… Mas ele não falava com ninguém e somente encarava seu copo. Em um determinado momento envergou. Em câmera lenta começou a se curvar e caiu no chão, por sorte sem se machucar. Ficou ali um tempo até que o meu avô foi ajudá-lo. Se recompôs e tomou o rumo da rua. Dias depois o vi novamente. Desta vez estava sorridente. Pediu um refrigerante e um torresmo. Puxou papo comigo, brincou com o meu avô e foi embora. O que aconteceu com ele? Jamais saberei. Mas que o boteco e aquele porre lhe ensinaram alguma coisa, disso não tenho dúvidas.

Conclusão

Me lembrar desse momento motivou-me a escrever este texto. Há anos atrás, mesmo após ter ajudado meu avô neste período, eu reprovaria um lugar como o bar do vovô. Hoje entendo perfeitamente que botecos são necessários. Praticamente de utilidade pública. Em nossas vidas passamos por vários momentos, e vamos combinar, quem nunca quis tomar um porre sem ser incomodado?

Vá de boteco. E eles não devem ser utilizados somente em casos onde você precisa ficar em paz consigo mesmo. Pode ser o lugar ideal para você encher a cara com um amigo que não vê a tempos ou para trocar uma idéia com o seu velho. Botecos são legais. Saiba a hora de aproveitá-los e curta a experiência.

Tem algum boteco legal para indicar? Deixe aí nos comentários.

Cheers!

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  • Victor Dariú

    Post incrível, descreveu como é e como sempre foi um boteco perfeitamente. Trabalho em um de meu padrasto depois da escola e é perfeitamente assim.kkkk

  • Carlton Banks

    Sensacional! sem palavras

  • Daniel Camargo

    Muito bom o texto! Boteco “bão” é assim mesmo. Nada melhor que tomar várias num boteco depois de um dia estressante somado àquela vontade não ser sociável, de não ter que se preocupar com aparências ou cordialidades. Num boteco prevalece o que realmente importa: bebida, tira-gosto, descontração, conversa fiada e uma história a mais pra contar! E… hoje é sexta, bora beber! rs