Ressaca Moral

Aquele dia começou diferente. Minha mulher me acordou feliz. Café da manhã reforçado. Ela me encheu de beijos. Jurou amor eterno. Prometeu me perdoar por tudo o que tinha feito. Até eu sair para o trabalho, me ajudou em tudo. Da meia à gravata. Naquele dia o trem não estava tão cheio. O Rio de Janeiro não estava tão quente. A paciência me sobrava, nem parecia que eu receberia uma ressaca moral.

Meu dia de sorte…

Era uma terça-feira, mas não ordinária. Cheguei ao trabalho e tudo foi muito tranqüilo. Pouco trabalho. Patrão viajando. Descalço. Camisa aberta. Achei um dinheiro caído. Almoço reforçado. Arroz e feijão. Bife com batata frita. Um sorvete em nome da sorte. Tudo como sempre, só que um pouquinho melhor. Era o meu dia de sorte.

Não tive trabalho na hora da tarde. Fui agraciado pelos deuses da preguiça. Finalmente, após anos, tive tempo para pensar na vida. Jogava bolinhas de papel na baia do lado. Pensei em levar o filho no Maracanã. Repensei as coisas erradas que fazia: fumar demais; chutar gatos; estar sumido do terreiro; trair minha mulher. A última me deu dores de cabeça. Resolvi, então, que daria um fim àquilo tudo. Marquei um encontro com a outra. O bar de sempre.

Infelizmente, o ócio fez o dia ficar curto e, portanto, acabei não pensando num discurso para terminar com uma relação adúltera. O desespero bateu minha consciência e só conseguia pensar na pergunta “O que falar?”.

Quando a esmola é demais, o santo desconfia

O trem estava apertado. Não conseguia respirar direito. Tentaram botar a mão no meu bolso. Passaram a mão em mim. Acabei saltando duas estações antes do local do encontro. Quatro antes da minha casa. A caminhada era longa e o tempo para raciocínio, necessário.

Passo após passo, a mente esvaziava mais. Fiquei impaciente. O suor escorria as costas e molhava o terno claro. A camisa estava toda aberta. A gravata na pasta. Estava nervoso. Só pensava em chegar, tomar duas cervejas e dizer “Acabou!”. Isso e ir embora. Rápido e limpo.

Créditos: Anna L. Fischer

Chego à porta do bar. A única pessoa lá dentro é ela. Carnes tenras. Lábios vermelhos. Cabelo preso. Decote demasiado. Tinha que ser forte:

  • – Temos que conversar… – falei ofegante.
  • – Sobre…? – ela perguntou.
  • – Antes uma cerveja, né?

O medo subia as costas. Já não transpirava mais. Sentia-me gelado. Arrepiava a cada piscadela que recebia. Tentava arranjar espaço para fugir de suas longas pernas. Foi nessa hora que me dei conta que ela era muita areia para o meu caminhão.

E a cerveja termina… Ou não…

  • – Veja bem… temos que conversar sério. – eu tentei, mas acabei pedindo a segunda cerveja que tinha me prometido.

Por horas, ficamos ali. Somente papos furados e cervejas. Quando o bar estava fechando, percebi que tinha perdido a noção do tempo. Ela, insatisfeita com a minha pressa, veio me dar um sermão:

  • – Me tirou de casa pra ter companhia pra beber?! Tem mais o que fazer não?! Pois eu tenho! – gritou me expondo ao ridículo.
  • – Ora… temos que conversar, mas agora não é uma boa hora.
  • – Seu filho da puta! Não quero mais saber de você me enrolando! Ou fica comigo, ou com a merda da sua mulher! Vive prometendo que vai largar tudo por mim, mas estamos há dois anos nessa embromação! Vou te matar!! – em meio aos gritos, saí correndo com a sensação de dever cumprido.

Após pegar o último trem, cheguei a casa com a sensação de alívio. Sabia que tinha ali mais uma leoa para domar. “Como vou explicar tanto atraso?” – pensei. Sentei na frente de casa e tentei buscar uma solução. Pensei tanto, que adormeci na calçada. Acordei com o sol no rosto.

Na manhã seguinte, ao entrar em casa, sou recebido com um café que vem voando em direção à mim.

  • – Dormiu na rua, né, safado? – esbravejava minha mulher – Volta pra ela! Acha que não sei? Esqueceu o dia do nosso aniversário de casamento para ficar com a outra?

Sem reação, não consegui pensar direito e fui sincero quando não devia:

  • – Mas eu terminei com ela para ficar só com você!

Nessa hora, minha mulher abre os olhos como se fosse usá-los para me comer.

  • – Você realmente tinha uma outra?! – a voz de espanto dela é quase que em tom de desmaio.

Era uma quarta-feira, mas não ordinária.

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