Viver é o melhor Plano de Saúde

Créditos: thepretenda

Essa cena aconteceu quando estava fazendo meu teste físico. Todo ano faço uma bateria de exames para saber como está meu coração. O péssimo histórico familiar me põe num grupo de risco. Por conta disso, tenho que me cuidar. Pelo menos, eu tento.

A temida consulta com as temidas perguntas

A consulta começou no horário marcado. Logo que entrei e sentei na sala, o médico veio me perguntando:

  • – O senhor bebe? – respondi com a cabeça que sim, ele continuou – Quantas vezes por semana? Duas? Uma?
  • – Bebo todo dia, doutor.
  • – Mas você deve beber vinho, não?
  • – Não. Bebo cerveja. Vinho é muito caro e não tenho paladar pra isso.
  • – Mas todo dia mesmo? De domingo à domingo?
  • – Sim, todo dia. Só não bebo quando tenho algum problema.
  • – Quando está doente ou de ressaca? – o médico me perguntou querendo fazer piada.
  • – Não, doutor. Cachaça cura qualquer resfriado e a melhor coisa para se recuperar de uma ressaca é uma cerveja bem gelada.
  • – Mas bebe quanto? Uma latinha? Duas latinhas?
  • – Bebo três ou quatro garrafas.
  • – O senhor quer dizer long neck?
  • – Não, doutor. Garrafas de 600 ml mesmo.
  • – O senhor é alcoólatra?
  • – Que é isso, doutor?! Vira essa boca pra lá! Eu bebo para conversar, relaxar, fazer amigos, comemorar, apagar tristeza…
  • – Mas o senhor não pode fazer isso sem beber?
  • – O doutor espera que eu fique no bar tomando chá?! Já viu alguma roda de homens em torno de uma jarra de leite ou uma garrafa de água?!
  • – Faça amizades jogando carta, num banco de praça ou na fila do banco…
  • – O doutor espera que eu acredite que alguém realmente tenha muitos amigos assim? Além do mais, vou apostar o que no carteado? Dinheiro? Dinheiro eu não tenho, mas cerveja nunca me falta.
  • – Ok! Ok! Entendi seu ponto. Vamos adiante… O senhor fuma?
  • – Fumo sim, doutor.
  • – Péssimo vício. Quantos cigarros por dia?
  • – Fumo 20 à 30 cigarros por dia. Depende da quantidade de cerveja.
  • – Quanto mais o senhor bebe, mais o senhor fuma, né?
  • – Isso! Uma coisa puxa a outra. Ordem natural.
  • – E desde quando fumar e beber tanto assim é “ordem natural”?
  • – Lá onde eu moro é, doutor.
  • – Me diga uma coisa: você faz tudo o que os outros fazem?
  • – Por que o doutor não pergunta se são eles que fazem tudo o que eu faço?! – carreguei no tom de indignação.
  • – Pois bem: Eles fazem tudo o que o senhor faz?
  • – Aí, doutor, você tem que perguntar para eles! – respondi sem titubear.
  • – Ora, isso é uma brincadeira sem graça! Pelo menos o senhor sabe que o cigarro é o pior vício que tem, não?
  • – Discordo, doutor.
  • – Como assim discorda? Cigarro você pode comprar em qualquer esquina. Os amigos oferecem quando você não tem. A fumaça alheia dificulta resistir à tentação. Cigarro é sim o pior vício, meu senhor! – nessa hora o médico estava de péssimo humor.
  • – Veja bem, doutor… Se eu sou fumante, qual a pior coisa que eu posso fazer? Pegar um isqueiro de alguém? Furtar um cigarro numa carteira? Pegar uma bituca de cigarro velho num cinzeiro abandonado? Daqui há trinta anos vou me arrepender do quê? De ter feito isso? De ter fumado?
  • – Isso se o senhor viver mais trinta anos!! Do jeito que você me conta as coisas, será difícil chegar lá! Aliás, ainda assim, o cigarro deixa impotente, deixa careca, dá mal hálito, amarela os dentes e acaba com o fôlego.
  • – Mas, doutor, ainda assim não é o pior vício!
  • – E qual seria o pior vício?
  • – Lá na minha área, doutor? O crack! Os meninos não duram nem três anos, ficam desdentados, vendem o videocassete, roubam… Isso sim!!! Isso faz alguém se arrepender! Ficar broxa eu sei que vou ficar, mais cedo ou mais tarde. Careca eu já sou e se cabelo fosse bom não nascia no cu. Mal hálito até alho dá. Dentes amarelos podem ser do café também.
  • – E o fôlego, senhor?
  • – E eu lá tenho medo de alguém?! Quando vou precisar sair correndo?! Enfrento tudo de frente!

Os exames e o retorno…

Isso sim é dr. esperto

Créditos: PanzerGeist

O médico desistiu das perguntas e resolveu seguir com o exame. Subi na esteira, fiz o eletro-cardiograma e todos os demais. Quando os resultados saíram, em poucos dias, tive outro encontro com o mesmo doutor.

  • – O senhor viu o resultado dos seus exames?
  • – Vi, mas não entendi.

Recebi uma explicação minuciosa. Em resumo, o médico afirmou que não teria uma vida longa e saudável com o meu estilo de vida. Fez diversas ponderações. Pediu para me exercitar e falou que, do jeito que estava, não demoraria muito para ter um enfarto. Ainda me alertou:

  • – Desse jeito, não teremos uma terceira consulta.

O médico estava certo. No dia seguinte à minha segunda visita ao consultório médico, o doutor morreu atropelado por um caminhão de lixo.

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