Era uma vez o acabado – 3

“Moya reencontra sua última ex-namorada e tenta uma reconciliação, com visitas, tentativa de devolução de presentes, almoço e sobremesa feitos por ele. Confira o desenrolar da história.”

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Anna, minha mais atual ex-namorada, teve todas as razões do mundo para terminar comigo. Não posso me fazer de vítima. Se sofro pela perda, é porque cavei por esse momento. Cavei meu próprio túmulo. É o ônus de ser uma pessoa ruim. O único prejuízo: a solidão. De resto, eu sou casca-grossa. Maldito por ideologia. Por defesa.

Quando ela terminou comigo, nem pude voltar para casa em que morávamos em Santa Teresa. Era o nosso lar. Lindo. Colorido por ela. Flores. Muito álcool. Sempre em festa. Uma pequena Woodstock sem pretensões. A música ficava por minha conta. Uma vasta coleção de CDs. Sim. Eu compro CDs. Gosto de tê-los. São como livros, quadros e porta-retratos. Tudo feito para se ostentar. Encher a sala e mostrar aos amigos.

Se livrar do Moya…

Chegaram as caixas com meus pertences. Anna queria tanto se livrar de mim que ela mesmo pagou o frete. Já achei quase tudo. Meus óculos escuros. Minhas camisetas pretas. Calças jeans. Meias. Sapatênis. E os CDs. Quase tudo aqui. Sinto falta da coletânea do The Animals. Uma dessas coletâneas baratas, que ficam abandonadas entre outros CDs em promoção, como Art Popular, Eliana, Daniel e outros. Ainda assim, é uma coletânea do The Animals.

Talvez isso seja um sinal para voltar. Pedir desculpas pelo que fiz. Vou fazer isso. Bato na casa dela e mostro todo o arrependimento. Saio dessa faceta escrota e mostro um lado sensível. É difícil pra caralho fazer isso, mas é necessário. Desde pequeno me foi ensinado que homem não quebra. Ser cabeça-dura é questão de orgulho. Tem horas que sou assim. Tem horas que o bom senso bate e me obriga a assumir o erro.

Errei, eu sei

Homem triste

Créditos: Frits de Beer

Anna tem toda a razão do mundo. O que eu fiz não interessa saber agora, querido leitor. Outro dia eu conto. Outro conto. Basta saber que errei. O sentimento de culpa e o arrependimento não deveriam ser as punições do Homem? Existe penitência maior que se sentir um merda? Com a solidão eu sei lidar. Essa sempre esteve comigo. O derrotismo não. Será que estou fadado a magoar as pessoas? Provavelmente sim. Ou é isso, ou abaixo a guarda.

Voltar a morar com a mãe é legal por um lado, mas uma porcaria por tantos outros motivos. Adoro minha mãe, mas ficar aqui é abrir mão de certas liberdades. Se eu quiser comprar um filme pornô na televisão. Se eu quiser trazer uma mulher para casa. Se eu quiser beber antes do almoço. Se eu quiser chamar os amigos. Colocar o som no máximo. Não posso.

“There is a house in New Orleans, they call The Rising Sun, it’s been a ruin of many a poor boys and god I know I am one”.

O mais triste é reencontrar coisas de anos atrás. Os ternos que não servem mais. As camisetas com estampas. Os sapatos pretos. As sungas. Eu saí daqui pra me tornar o homem que sou hoje. Voltei como soldado que bate em retirada, que recua. Voltei vencido. Derrotado. Esses CDs aqui não me negam. Esse quarto não tem espaço para tudo o que tenho. Antes, Anna deixava a sala para expor minhas conquistas culturais. Uma sala com meus livros, CDs, as fotos… Tudo isso se misturava com os vasos de flores, as cores vivas, a luz negra e as frases que Anna escrevia nos espelhos. Lá era tudo perfeito. Aqui não cabe. Cresci demais para não ficar numa suíte. Cresci demais para ficar na asa da minha mãe.

Amadurecimento traz aprendizado

Homem sentado na mesa com uma boneca

Créditos: Frits de Beer

Não é só uma questão de amadurecimento. É uma questão de aprendizado. Agora eu sei lavar a roupa em máquina de lavar. Não preciso mais desse cesto. Aprendi a fazer a minha comida e fazer minhas compras. Essa geladeira não me serve tanto assim. Perdi as verduras da feira da Lapa. Perdi as manhãs de chorinho do Lavradio. Perdi os bares com os artistas de Santa Teresa. Voltei pra Botafogo – que é o bairro que mais amo, leitor -, mas é como um órfão que perde a guarda e precisa reativar as esperanças no orfanato.

Botafogo sempre foi meu time de coração e meu bairro favorito. Aqui eu não preciso de carro. Não preciso de ônibus. Tenho tudo ao alcance dos meus pés. Só que retornar é retroceder. Involução. Antes eu era homem, com minhas contas para pagar. Agora sou hóspede, criança.

Leitor, se você viveu isso, você sabe do que estou falando…

Mais do que pedir desculpas, eu preciso de um plano de reconquista. Esse orgulho machista fere mais do que cura. Vou subir Santa Teresa com flores, duas garrafas de um ótimo vinho, macarrão fresco (fresco mesmo, não esses de supermercado) e faço um molho pesto. Simples e leve. Nada que pese a barriga e deixe-nos empanturrados. Sexo de reconciliação sempre foi o melhor gozo. Sempre será. Todo casal tem que experimentar isso. Talvez, de sobremesa, um brownie feito por mim, com nozes e um bela bola de sorvete. Para recuperar as energias.

Essa última caixa de papelão deve ter a minha calça jeans favorita. É uma que a Anna me deu e adora. Nem é de marca famosa, mas é ótima. Caimento certo pra mim. Bainha perfeita. Se tem uma coisa que Anna me ensinou é a me vestir bem. Ela fez moda e entende dessas coisas. O básico é suficiente para não cairmos no erro. Nunca será cafona. Nunca será brega. O básico é atemporal e não sai de moda. Anna é minha Coco Chanel. É brilhante e realista.

Pois bem… A vida é uma caixinha de surpresas infelizes.

Casal falando no ouvido

Créditos: jano vera

Adivinha o que estava embaixo da minha calça jeans favorita, leitor? O CD do The Animals. Se eu conheço a minha ex-namorada, isso foi um recado para eu não tentar voltar para casa. “Oh, Lord, please don’t let me be misunderstood”. Ela não vacila. Colocar esse CD junto com essa caixa. Eu não estou viajando. Conheço a Anna como conheço a mim mesmo. O álbum poderia estar junto com todo os outros, nas duas caixas que só tinham isso. A calça jeans poderia estar junto com as caixas de roupa. Não. Ela colocou minha melhor calça e o The Animals junto com as quinquilharias, ao lado da minha sandália com a bandeira do Uruguai e meu abajur quebrado.

Sei que não existe sistema de referência absoluto, mas mesmo no absurdo do acaso dela ter colocado esses dois itens juntos sem querer, Anna não esqueceu de colocar um coisa sequer nas caixas. Tudo o que é meu está aqui comigo, na casa da minha mãe. Se isso não for um “adeus”…

E eu que era uma alma com boas intenções, agora sou uma vida a ser gasta em pecados e apostas. O destino é o fim.

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