Era uma vez o acabado – 4

“Moya vai a um boteco pé sujo beber e ouvir algum tipo de música, quando encontra uma mulher mais velha, triste e enchendo a cara. Os dois bebem conversam e contam suas histórias. Confira!”

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Os pés sujos da vida são oásis da liberdade. Para quem é da classe média, um botecão imundo é um refugo dos conhecidos. Cerveja barata. Batata mais oleosa. Cigarros. É permitido fumar. Um buraco negro no meio de tanta civilidade. Para os que gostam de pose e instagram, pés sujos são asquerosos como Guantánamo. Desrespeitam as normas do bom senso. Para quem gosta de ser reservado, esses bares são recantos dos guerreiros. Pequenas igrejas do alcoolismo.

É como um bom álbum do REM. Você pode não reconhecer por ignorância, mas essa banda tem criações maravilhosas. Murmur é um exemplo. Um dos melhores CDs que tenho. Aqui não tocaria isso. Jamais. Aqui tá tocando um forró/brega/calypso. É do nicho. É do local. Aqui a brasilidade é mais aflorada. Longe da falsidade dos bares que viraram franquias. Um em cada bairro. Em cada shopping. É o fordismo do sanduíche de pernil. É a banalização das azeitonas. A elitização do torresmo. É o Rio Surreal.

Mulher bebendo sozinha, hmmm

Mulher bebendo sozinha num bar

Créditos: Frederic Poirot

Num ambiente tomado por homens, aquela senhora – que deve ter uns 35 anos, mas parece ter mais de quarenta – torna-se deusa. Uma musa. Ela tá ali, na dela. Sozinha. Um cigarro na ponta dos dedos. Um copo de cachaça. Um salgado pela metade no prato. Um a um os homens tentam cantá-la. Eles a chamam para dançar. Ela não quer. Cabelo pintado, bem preto. Pele enrugada pelo tabagismo. Uma barriga pendurada por cima da calça. Nada muito longe de mim ou de você, leitor.

Apesar da minha solidão ser uma ilha paradisíaca, ver uma mulher abandonada num balcão de boteco dói meu coração. Algumas pessoas doam sangue. Outras ajudam os famintos. Eu pago impostos e salvo donzelas de submundo. Dou o último gole na minha terceira garrafa de cerveja e aproximo meu corpo flácido perto dessa princesa de Hades.

  • – Não quero dançar! – sou alertado por ela
  • – Nem eu. – tento ganhar espaço e confiança – Prazer, Armando.
  • – Maria.

Só poderia ser Maria. Uma como tantas outras. Mãe de um dos maiores protagonistas da ficção mundial. Tanto significado para quem é tão pouco notada.

  • – O que aconteceu? – pergunto
  • – Como assim?!
  • – Pode falar. Isso aqui é um bar. É consultório. Bares servem pra isso.
  • – Meu marido me traiu. Não quero voltar para casa.
  • – Também vivo uma recém-separação. Conte-me sua história primeiro.

Blá, blá, blá…

Mulher falando no telefone com uma banana

Créditos: love,Loren

Maria desabafa um mundo em minhas orelhas. As contas. As filhas. A infelicidade. O trabalho. “Disapoint is into us absurd” – diria o REM em Radio Free Europe. Só que minha companhia não é de poesia. Talvez nem entenda inglês. Como pode ser a vida tão merda e ela tão forte. Sem uma lágrima no rosto, Maria fala de violência como lugar comum. Eu me mataria por menos. Confesso. Porém, não sou daqueles que valorizam a vida ou a existência. Maria sim. Ela é batalhadora.

Decidida a dormir na rua, Maria quer ter o sono mais profundo. Por isso bebe. Ela não tem medo de baratas ou ratos. Tem medo do que ela pode fazer com o marido. Uma mulher mal amada é um homicídio em potencial. Um homem mal amado é um suicida. Vide Os Sofrimentos do Jovem Werther. Maria trabalha amanhã e não tem onde ficar. Ela tem seis horas de sono e depois oito horas de trabalho. Só então ela vai para casa. O marido é policial e vai ficar no batalhão por 48 horas.

Divido a cachaça com Maria. Não almocei. Não jantei. É madrugada e meu corpo quer entregar a partida. Não vou conseguir dormir com a história dela na minha cabeça. Preciso livrar de mim esse peso.

  • – E se eu arranjasse um local pra você dormir, Maria?
  • – Não quero transar com você.
  • – Com todo respeito, Maria, mas nem eu com você. E olha que já comi piores.
  • – Onde você quer chegar?
  • – Eu pago um motel no Centro. Você dorme lá e amanhã vai ao trabalho. Na rua que você não vai dormir.

Partiu pro abate…

Casal abraçado

Créditos: Jakob Ebert

Maria não responde. Ela deve estar calculando o tipo de caráter que eu tenho. Se sou ou não um perigo. Se tenho ou não cara de maníaco. Então, o dono do bar se aproxima:

  • – Se quiserem, alugo um quartinho aqui no depósito e o casal pode passar a noite junto. Só que vocês ficarão trancados e só abro às sete da manhã.
  • – Quanto é? – pergunto
  • – 30 reais a pernoite. – ele fala rindo
  • – Mas é só pra ela.
  • – Só alugo pra casal.
  • – Topamos! – Maria diz para em seguida virar meio copo de cachaça – Cadê a chave?

O dono do bar entrega as chaves e Maria me leva para o andar de cima, no depósito, onde há um colchonete para solteiro. Ela imediatamente tranca a porta e começa a tirar a roupa. O corpo de Maria parece cansado. Honesto com sua história. Algumas cicatrizes.

  • Calma, Maria. O combinado não é esse.
  • – Por mim. Por favor. Ninguém ficará sabendo. – eu permaneço calado, atônito – Não me desaponte.
  • – “Disapoint is into us absurd” – cantarolo.
  • – Oi?
  • – Nada.
  • – Então, Armando? Vai me decepcionar?

Para quem gosta de ser reservado, esses bares são recantos dos guerreiros.

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